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A função de um educador

Posted by Magali Marcadores:

Qual é a verdadeira função de um educador? Que é educação? Por que somos educados? E somos de fato educados? Porque uma pessoa passa em certos exames, obtém um emprego, compete, luta, se torna, brutalmente ambiciosa – isso é educação? Que é um educador? É o homem que prepara o estudante para um emprego, apenas para um emprego, que lhe dá proficiência técnica para ganhar a vida?
É só isso que conhecemos atualmente. Há grandes escolas e universidades onde se prepara a juventude de ambos os sexos para ter um emprego, para ter conhecimentos técnicos, para que ele ou ela tenha um meio de vida. É esta, tão somente, a função do verdadeiro educador? Há de haver algo superior, pois isto é muito mecânico. Dizeis então que o educador deve constituir um exemplo, um modelo. Concordais com isso? Tereis que pesquisar a verdade do problema: penetrá-lo. Quando o penetrardes, vereis a sua verdade, isto é, nenhum exemplo se faz necessário. Ponde de lado vossas conclusões ou condicionamento e indagai. Dizeis um educador deve ser um exemplo. Que quereis dizer com isso? Um exemplo, um herói, para que o jovem ou a jovem o imite? Afinal, nós já temos tantos modelos: Cristo, Buda, Gandhi e — passando ao outro extremo — Lenin, Stalin, e sabe Deus quem mais; e, ainda, vários santos e heróis.
Em que implica a ideia de “exemplo”? Se a função do mestre é a de ser um “exemplo”, não está ele então, consciente ou inconscientemente, impondo um padrão ao moço, ao estudante? O ajustamento a um padrão, por mais nobre que seja este padrão, por mais bem ideado e planejado, pode libertar o indivíduo do temor? Porque, é bem de ver, o estudante é educado para fazer face à vida, para compreender a vida, e não para enfrentá-la como comunista, ou capitalista, ou como um estúpido qualquer, diferentemente condicionado. Temos de ajudá-lo a enfrentar a vida. Para se enfrentar a vida, não pode haver temor, e isto é muito raro. Para se ser sem temor não se precisa de exemplos ou de heróis. Se não houver heróis ou exemplos, o estudante se perderá? Tal é o receio dos mais velhos, não é verdade? Assim, dizem eles: ‘Para que ele não se desvie do bom caminho, necessita de um exemplo. Ele tem de ser levado a imitá-lo, consciente ou inconscientemente”. E criamos desse modo um ente humano medíocre, sem iniciativa, uma entidade ajustada, uma máquina, que tem medo de pensar, de viver, de descobrir. Um exemplo não implica em que se engendra no estudante o medo de compreender por si mesmo os seus próprios problemas, e no educador o medo de ajudá-lo a compreendê-los? E se o próprio educador se torna o guia, o exemplo, o herói, não está ele então instilando o medo no espírito do jovem, do estudante? Assim, pois, sem dúvida, o verdadeiro educador não é um “exemplo”, nem tem a função de inspirar o estudante, porque inspiração implica em dependência Escutai, por favor. É provável que, no fundo, isto vos enfade, porque supondes já ter passado da idade de receber educação. — Que tem a idade que ver com a educação? A educação é um “processo” que dura toda a vida, e não só na idade escolar. Nessas condições, se se quer criar um mundo novo — o qual poderá ser criado pelos vossos filhos e filhas, mas não por vós, que já pusestes tudo em desordem — se se quer criar um mundo novo, é necessário criar-se uma inteligência de nova ordem, uma inteligência sem medo. Um estudante que sente medo, porque tem o exemplo dos santos e dos heróis e uma multidão de padrões de pensamento estabilizado, uma tradição, não poderá criar um mundo novo; ele criará o mesmo mundo feio, malfazejo, fértil de desgraças. Por conseguinte, a verdadeira função do mestre não é a de “inspirador”, de “exemplo”, mas, sim, a de despertar a inteligência no jovem— o que não significa deva ele tornar-se o “esclarecedor”. Se o mestre se tornar o “esclarecedor”, se tornará imediatamente um guru para o estudante, visto que este ficará na dependência dele, como “esclarecedor”; e deixa-se, assim, o estudante embotar, visto contar com alguém que vai esclarecê-lo, despertá-lo.
O mestre, pois, não é o “esclarecedor”, não é o “inspirador”, nem o guia, nem o herói, nem o exemplo. A verdadeira função de um preceptor é completamente diferente: é a de ajudar o estudante, educá-lo para perceber todos estes problemas. Não pode o estudante perceber os problemas, se existe medo — medo de ordem econômica, social ou religiosa. Não é um verdadeiro mestre aquele que está sempre a comparar o estudante com outra pessoa, com o irmão mais velho, o aluno mais inteligente da classe, etc. — porque essa própria comparação destrói o indivíduo a respeito de quem se faz a comparação. Prestai, por favor, atenção a isto. Não existe o verdadeiro educador em nenhuma de nossas escolas atuais. Urge, pois, educar o educa dor, e este é um dever que vos incumbe, pois o Estado não irá tratar disso. Ao Estado só interessa ajustamento, a produção de resultados quantitativos.
O verdadeiro educador não é o pai, a mãe, a sociedade, e não uma dada entidade especializada? É vosso dever, pois não achais? É vosso dever contrapesar, intervir, no lar, à falta de um verdadeiro mestre, para o despertar da inteligência do jovem, sem temores, sem comparações, o despertar da inteligência, com a qual ele poderá enfrentar a vida e compreender todas as influências que condicionam, de modo que, como um ente humano inteligente, sem medo, sem competição, possa ele criar um mundo novo ande não haja guerras nem horrorosas misérias sociais — ou criar para si um mundo pior do que o nosso… tudo depende dele. Nessas condições, a verdadeira função de um educador é criar uma atmosfera, um ambiente em que o estudante possa crescer e frutificar, sem temor.
Senhores e Senhoras, acabais de ouvir isso. Seria mui to interessante saber qual é a vossa reação. Direis: “é impraticável, é utópico, só possível aos Rishis*. Precisamos de empregos para ganhar o nosso sustento. Que será de mim, na velhice, se meus filhos não me ampararem?” — Se tal é a vossa reação, não alcançastes a verdade relativa à questão. Se percebestes esta Verdade, ela atuará, a despeito das sutilezas de vossa mente. É muito importante perceber a verdade nesta questão.

*Rishis – Reis Santos, Seres que atingiram níveis muito superiores de percepção e conexão divinas, Seres Realizados e Iluminados.

Krishnamurti – 6 de dezembro de 1953
Do livro: O Problema da Revolução Total – Editora ICK




Força, Luz e Paz

Sobre a libertação do condicionamento

Posted by Magali Marcadores:

Uma das coisas mais difíceis, parece-me, é a correta comunicação entre pessoas. Se desejo dizer algo, tenho de usar certas palavras, e as palavras tendem naturalmente a ter significado ou valor diferente para cada um dos ouvintes. Uma reunião silenciosa de pessoas produz seus benefícios próprios; mas, para nos comunicarmos uns com outros, torna-se necessária a “verbalização”, e é muito difícil comunicar devidamente o que desejamos transmitir de maneira que o ouvinte compreenda sua inteira significação, principalmente em se tratando de matéria complexa, como é agora o caso. Requer-se uma certa facilidade de comunicação, para que todos compreendam o que se está falando.

Desejo versar um assunto que considero bastante importante: se é possível, vivendo neste mundo, libertarmo-nos de todo condicionamento, a fim de que cada um se torne um verdadeiro indivíduo e, consequentemente, capaz de descobrir o que significa ser criador. Por certo, aquilo que se pode chamar a realidade, Deus, a Verdade, ou como quiserdes, é um estado de renovação constante, um estado de criação; e esse estado criador não pode ser realizado, experimentado ou conhecido, se não há a verdadeira individualidade; e para se alcançar essa verdadeira individualidade torna-se necessária a libertação do condicionamento.

Nossa mente está condicionada pela sociedade em que vivemos, pelos livros que lemos, pela religião, pelos valores sociais e morais, por nossos temores e ambições, nossa inveja, etc.; todas essas coisas concorrem para criar um condicionamento mental. Isso me parece bem óbvio.

E é possível libertarmos a mente desse condicionamento – não com o procurar de um condicionamento melhor e mais nobre, porém libertando efetivamente o espírito de todo o seu condicionamento? Enquanto não o fizermos, não seremos indivíduos; seremos mero resultado da coletividade e isso também é muito óbvio, embora seja provável que nunca tenhamos refletido a seu respeito.

Ao nos examinarmos com um pouco mais de atenção, torna-se evidente que, pela maior parte, o nosso pensar, os valores, as experiências, os conhecimentos, as crenças que possuímos, são resultado de nossa educação, de inúmeras influências; o clima em que vivemos, os alimentos que ingerimos, a literatura e os jornais que lemos, todos os elementos ambientes, tudo isso, condicionam a mente. Pode-se ver que nosso pensar está sempre de acordo com um padrão, e esse padrão já está bem firmado. Quanto mais altamente organizada, quanto mais eficiente e cruel é a sociedade, tanto mais rigorosamente o padrão é cultivado e implantado na mente. E é possível ser-se livre desse condicionamento, de modo que a mente não pense de acordo com um padrão, porém transcenda completamente a esfera do pensamento? Isso, porém, não significa um vago misticismo, um estado sonhador, pois esse estado, pelo contrário, é muito positivo.

Assim sendo, pode a mente libertar-se de seu condicionamento? Sei que há gente que diz que isso é impossível, uma vez que os entes humanos são, totalmente, um resultado de influências ambientes. O homem educado como cristão crê nos dogmas do cristianismo, enquanto o que foi educado como comunista não crê em nada disso – e isso, mais uma vez, demonstra como a mente é influenciada e posta a funcionar dentro de um padrão, uma rotina, aí permanecendo.

Ao observar isso, qual a nossa reação? Quer sejamos cristãos, quer hinduístas, budistas ou o que mais seja, já nos deve ter ocorrido, se investigamos seriamente, que cada um de nós é moldado, condicionado, por um certo padrão – não apenas o padrão imposto pela sociedade, pela cultura, pelas influências econômicas, pela religião em que fomos educados, mas também por um padrão interiormente imposto.

E devemos nos ter interrogado se é possível à mente que se habituou a pensar dentro de uma certa rotina libertar-se dessa rotina. Por certo, só a mente livre pode descobrir algo novo. O homem que puramente crê, ou não crê em Deus, continua prisioneiro do padrão de determinado ambiente; pela ação do medo, da compulsão, de toda sorte de influências, continua ele a fazer parte do todo coletivo. Nessas condições, pode a mente assim agrilhoada, libertar-se?

A capacidade de nos libertarmos não depende, por certo, de outra pessoa. Percebo que minha mente é o resultado de inumeráveis influências, que suas reações são determinadas por um estado já condicionado; e se me interessa descobrir se minha mente pode libertar-se, não parcial porém totalmente, tanto no nível inconsciente como no consciente, não tenho necessidade de perguntá-lo a outro; posso observar a mim mesmo. Posso libertar-me da ideia de “minha pátria”, do estúpido nacionalismo, das crenças em que fui criado; mas, no próprio processo de me libertar posso cair noutro conjunto de padrões. Em vez de hinduísta, posso tornar-me cristão, budista, comunista, etc. – o que é sempre um padrão.

Assim sendo, é possível libertarmo-nos de um padrão sem cairmos noutro?

Se uma pessoa está muito vigilante e observando bem o processo mental formador dos hábitos, é possível, superficialmente, libertar a mente da formação de hábitos. Mas, o problema não é tão simples assim, porque temos o inconsciente total, também condicionado, e esse condicionamento é muito mais difícil de perceber. É bem de ver que, pelo falar, pelo raciocinar, mediante várias formas de observação, posso libertar a minha mente do condicionamento superficial consistente em ser hinduísta ou católico – e isso, evidentemente, é necessário. Se desejo descobrir o real, devo ter, em primeiro lugar, uma mente não condicionada. A mente condicionada pode “projetar” suas próprias ideias e, a seguir, experimentar essas ideias. O cristão muito devoto e fartamente condicionado pode experimentar uma visão do Cristo; mas, o que ele está experimentando é sua própria “projeção”, procedente de seu fundo educativo, e tal experiência, portanto, nenhuma validade tem. Já se pudermos transcender todas as razões superficiais da mente, talvez então sejamos capazes de penetrar muito mais profundamente no inconsciente, que está incessantemente “projetando” o seu próprio condicionamento.

Assim, é possível penetrarmos conscientemente o nosso inconsciente, para descobrirmos as várias formas de seu condicionamento? Não sei se já pensastes em tal coisa. Podeis ter vossas opiniões a esse respeito, podeis declarar que é possível ou impossível; mas, penso que o estudante realmente interessado em investigar cabalmente a questão não fará declarações dessa natureza. Ele estará no “estado de investigação”. Não pode investigar em referência a outra pessoa, mas, tão só, em referência à sua própria mente.

A investigação parece-me, deve ser sem motivo, sem nenhuma compulsão em dada direção. Se tenho um motivo para minha indagação, esse motivo determinará o que acharei? Por conseguinte, não há verdadeira investigação enquanto houver um motivo qualquer. E quase todos nós temos variados motivos, não é verdade? Queremos ser felizes, queremos ser interiormente ricos, encontrar Deus, alcançar isto ou aquilo. E pode a mente despojar-se de todos os motivos e pôr-se no “estado de investigação”? Esta me parece, verdadeiramente, uma questão fundamental; porque é só quando estamos livres de motivos que seremos capazes de investigar a totalidade do inconsciente.

Em verdade, o inconsciente é um depósito de numerosos motivos de que não nos damos conta – temores, ânsias, e o resíduo racial. Para investigar tudo isso, a mente consciente, pelo menos, deve estar livre de qualquer motivo. E para se limpar, mesmo a mente consciente, de todo e qualquer motivo, requer-se muita vigilância, observação de nós mesmos. Isso significa estar cônscio do inteiro processo do pensar, verificar como o pensamento desponta na mente, e se esta pode mesmo libertar-se; ou, também, se o pensamento não passa de uma reação de determinado fundo, através da memória, não podendo, por conseguinte, ser livre. Uma pessoa pode ser capaz de raciocinar muito sutil e inteligentemente; mas, o seu raciocinar tem por fundo um determinado condicionamento.

Assim, para que a mente consciente possa investigar o inconsciente – onde estão depositados todos os motivos, impulsos, compulsões seculares – então, naturalmente, é necessário que a mente consciente esteja desde o começo livre de motivos e padrões. E, parece-me, só nessa investigação começaremos a dissolver as influências coletivas de que somos atualmente constituídos. Não somos, agora, indivíduos; embora tenhamos um nome distinto, uma conta corrente particular, etc. etc., nada disso constitui individualidade. O que faz nascer o verdadeiro indivíduo é o estado mental liberto de condicionamento. Só então se torna possível descobrir se existe uma realidade além das limitações do pensamento, além das invenções e teorias da mente.

Enquanto não alcançarmos esse estado, o que cremos ou não cremos a respeito de Deus ou da verdade tem muito pouca significação. Nossas crenças e descrenças serão meras repetições, imitações, das ideias e pensamentos colhidos nalgum livro ou da boca de outra pessoa, ou, ainda, “projeções” de nosso próprio desejo de conforto.

O homem verdadeiramente religioso não é aquele que está aferrado a certas crenças e dogmas ou a rigorosas práticas morais, mas, sim, aquele que começou a compreender o processo total de seu próprio pensar, tanto consciente como inconsciente. Esse homem é um verdadeiro indivíduo, porque sua mente não é mais um mecanismo de repetição; embora subsista a memória das coisas de que tomou conhecimento, essas coisas nenhuma influência têm no seu funcionamento. Essa mente se torna extraordinariamente quieta, sem nenhum movimento de desejo, nenhuma “projeção” ou motivo. Nesse estado manifesta-se a ação criadora da realidade. Mas, isso não é uma coisa para se ouvir e repetir, apenas, como o menino que aprende e repete suas lições. Proceder assim não tem significação nenhuma. O necessário é que cada um penetre muito profundamente em si mesmo, desembaraçando-se de todos os seus temores superficiais, suas invejas, ambições, desejo de segurança, de apego, de dependência – tão importante, para a maioria de nós – desembaraçando-se de todas essas coisas estultas e insensatas, não apenas temporariamente, mas libertando-se verdadeiramente de todas elas. Só então se pode descobrir se existe, ou não, uma Realidade, Deus, algo fora dos limites do tempo. Enquanto não descobrirmos isso por nós mesmos, não por intermédio de “salvadores” ou instrutores, porém pela experiência direta, pessoal, a vida continuará a ser uma coisa muito superficial. Podemos ter riquezas imensas, grande influência, e a possibilidade de viajar todo o mundo; podemos possuir vastos conhecimentos e mostrar-nos muito eloquentes em nosso falar; mas, sem aquela experiência direta, a vida se torna muito trivial e, subterraneamente, haverá sempre angústias, lutas, dores. Estaremos sempre procurando dar um significado à vida, indagando qual é a finalidade da vida; e inventamos, assim, uma finalidade – uma finalidade pessimista ou uma finalidade otimista.

Mas, se formos capazes dessa constante investigação, que é uma verdadeira forma de meditação, não deixaremos de atingir o ponto em que perceberemos que todo o nosso pensar está condicionado e que nossas crenças e dogmas nenhum valor têm. E ao percebermos que são sem valor, essas coisas cairão por si, sem termos de lutar contra elas. A totalidade de nosso condicionamento pode ser quebrada, não aos pedacinhos, o que leva tempo, porém imediatamente, pelo direto percebimento da verdade a seu respeito. A verdade é que liberta, e não o tempo ou nossa intenção de sermos livres. Eis porque é necessário termos a mente aberta, extraordinariamente receptiva. Porque não se pode perseguir e pegar a verdade; ela vem por si.

Releva, pois, investigar profundamente a questão do condicionamento, sem nos limitarmos a aceitar a asserção de outro sobre se a mente pode, ou não, libertar-se. Cabe a cada um investigar e libertar a si próprio. Penso que então algo se descobrirá além de todas as palavras, algo verdadeiramente incomunicável. O homem que realizou, que experimentou, por si mesmo, essa coisa, é um homem verdadeiramente religioso, porque já não está sob a influência da sociedade, essa estrutura de ambição, aquisição, inveja, atividade egocêntrica.

Krishnamurti – 2ª Conferência em Bruxelas – do livro: Verdade LIbertadora – ICK – 1960


Força, Luz e Paz

O que é liberdade?

Posted by Magali Marcadores:


Muitos filósofos têm escrito sobre a liberdade. Falamos sobre liberdade, para fazer o que quisermos, para ter o emprego de que gostamos, para escolher uma mulher ou um homem, para ler qualquer livro ou para não ler absolutamente nada. Somos livres, e o que fazemos com essa liberdade? Usamos essa liberdade para nos expressarmos, para fazer aquilo de que gostamos. A vida está se tornando cada vez mais permissiva, você pode fazer amor no parque ou no jardim.

Temos toda espécie de liberdade, e o que temos feito com ela? Pensamos que onde há escolha há liberdade. Eu posso ir à Itália ou à França: é uma escolha. Mas a escolha dá liberdade? Por que temos que escolher? Se você é realmente lúcido, tem uma compreensão exata das coisas, não há escolha. Disso resulta uma ação correta. Apenas quando há dúvida e incerteza é que começamos a escolher. A escolha, então, se vocês me permitem dizê-lo, constitui um empecilho para a liberdade.

Nos estados totalitários não há liberdade alguma, pois eles têm a ideia de que a liberdade produz a degeneração do homem. Portanto, eles controlam, reprimem — vocês sabem o que está acontecendo.

Então, o que é liberdade? É algo que se baseia na escolha? É fazer exatamente o que queremos? Alguns psicólogos dizem que, se você sente alguma coisa, não deve reprimi-la ou controlá-la, mas deve expressá-la imediatamente. Jogar bombas é liberdade? — veja apenas a que reduzimos a nossa liberdade!

A liberdade está lá fora, ou aqui dentro? Onde você começa a procurar pela liberdade? No mundo exterior — onde você expressa o que quer que você queira, a tal liberdade individual — ou a liberdade começa dentro de você, para então se expressar inteligentemente fora de você? Compreendeu a minha pergunta? A liberdade só existe quando não há confusão dentro de mim, quando, psicologicamente, religiosamente, não há o perigo de eu cair em nenhuma armadilha — você entende? As armadilhas são inúmeras: gurus, sábios, pregadores, livros excelentes, psicólogos e psiquiatras — tudo armadilhas. E se estou confuso e há desordem, não preciso, primeiramente, me livrar dessa desordem antes de falar em liberdade? Se não tenho nenhum relacionamento com minha mulher, com meu marido, ou com outra pessoa — porque nossos relacionamentos são baseados em imagens — surge o conflito, que é inevitável onde há divisão. Então, não deveria eu começar por aqui, dentro de mim, na minha mente, no meu coração, a ser totalmente livre de todos os medos, ansiedades, desesperos, e das mágoas e feridas de que sofremos por causa de alguma desordem psíquica? Observe tudo por si mesmo e livre-se disso!

Mas, aparentemente, nós não temos energia. Nós nos dirigimos aos outros para que nos deem energia. Falando com o psiquiatra nós nos sentimos aliviados — a confissão e tudo o mais. Sempre dependendo de alguma outra pessoa. E essa dependência, inevitavelmente, causa conflito e desordem. Então, temos de começar a compreender a profundeza da liberdade; precisamos começar com aquilo que está mais perto: nós mesmos. A grandeza da liberdade, a verdadeira liberdade, a dignidade, a sua beleza, está em nós mesmos quando a ordem é completa. E essa ordem só vem quando somos uma luz para nós mesmos.



Extraído do livro de Krishnamurti – Perguntas e Respostas 

A liberdade é um estado muito mais amplo, e, no entanto, desconhecido para boa parte desta humanidade... É necessário, estarmos mais atentos e disponíveis para que, essa Liberdade, se instale, de fato, em cada um...

Salve a Luz e a Paz

O que é uma mente medíocre?

Posted by Magali Marcadores:

PERGUNTA: A tradição, os ideais e um certo senso de moralidade social mantinham as pessoas medíocres como eu ocupadas de maneira virtuosa; mas essas coisas já perderam para a maioria de nós toda a significação. Como podemos libertar-nos de nossa mediocridade?

KRISHNAMURTI: Senhores, que é uma mente medíocre? Não a definais - uma definição pode achar-se facilmente num dicionário -, mas observai vossa mente e tratai de descobrir por que é ela vulgar, medíocre. Diz o interrogante que a tradição, os ideais e um certo senso de moralidade social mantinham ocupadas, de maneira virtuosa, as pessoas medíocres como ele. Ora, isso não era uma "maneira virtuosa", mas uma maneira tradicional. Fazer o que a sociedade manda não é virtude; é meramente atuar como gramofone, e isso nada tem em comum com a virtude. Virtude implica liberação da avidez, da inveja, da ambição de poder, e que a pessoa fique só. Somente então pode-se falar em virtude. Atuar mecanicamente, porque durante séculos fostes educados para pensar de uma certa maneira e ajustar-vos a um certo padrão, isso não é virtude.

Que é então mediocridade? Não o sabeis? Não sabeis o que é uma mente medíocre? Ora, isso é muito simples. A mente ocupada é uma mente medíocre. Com o que quer que esteja ocupada - Deus, bebidas, sexo, poder - ela é uma mente medíocre. Compreendeis, senhores? A mente que pratica virtude de manhã à noite é uma mente ocupada, e portanto, medíocre já que está interessada em si própria. Podeis dizer: "Não estou interessado em mim mesmo; estou interessado na Índia"; mas isso é apenas transferir a própria identidade pra a uma coisa e ficar ocupado com essa coisa. Toda ocupação - com um livro, um pensamento, com qualquer uma dúzia de coisas - denota mediocridade, porque a mente ocupada não é uma mente livre. Só a mente livre pode dar atenção a uma coisa e depois "soltá-la" - e isso é bem diferente de ficar ocupado com ela. A mente ocupada jamais pode ser livre. Examinai vossa mente, para verdes quanto ela está ocupada com vossos interesses, com vossa família, vosso emprego; da manhã à noite, nunca há um momento em que esteja vazia - o que não significa um estado de apatia, de vegetação, ou de devaneio. Isso não é vazio. Quando a mente está ocupada, cansa-se e opõe-se a pensar vagamente noutra coisa - e isso é apenas outra forma de ocupação. Não é disso que estou falando. A mente não ocupada acha-se em extremo vigilante, mas não em relação a alguma coisa. Seu estado é de atenção completa; e no momento em que existe esse estado, há criação. Essa mente deixa de ser medíocre; quer viva na aldeia, quer na capital, já não está dominada pelos ditames da sociedade. Mas isso requer laboriosa investigação de si mesmo, e não complacência dos pequenos êxitos; é resultado de um trabalho realmente penoso para descobrir o motivo da ocupação mental.

Não estais vendo, senhores, que andais ocupados com os assuntos de outras pessoas porque vós sois as outras pessoas, não sois vós mesmos. Não vos conheceis. Estais ocupados com coisas que vos disseram serem importantes, mas, se tiverdes um sentimento real a respeito de uma dada coisa, vereis que já não haverá ocupação. O homem dotado de profunda sensibilidade não é uma pessoa medíocre; porém, quando procura expressar essa sensibilidade em palavras e faz muito "barulho" em torno dela, quando com essas palavras busca a fama, a notoriedade, dinheiro ou o que quer que seja, então ele se torna medíocre. Assim, a investigação da mediocridade é uma investigação de vossa própria mente, e com ela descobrireis que a mente ocupada permanece sempre medíocre.

Do livro: O homem livre  
 
Força e perseverança na caminhada...

O que é medo - 2ª parte

Posted by Magali Marcadores:


A defesa contém o germe do ataque. Desejo a segurança física; crio, por conseguinte, um governo soberano, o qual torna necessárias forças armadas, o que significa guerra, que destrói a segurança. Onde quer que haja o desejo de autoproteção, há temor. Quando percebo a falácia da exigência de segurança, não acumulo mais. Se disserdes que percebeis isso, mas que não podeis deixar de acumular, então não percebe realmente que, inerente à acumulação, há dor. Há medo no processo de acumulação, e a crença em alguma coisa faz parte do processo acumulativo. Morre meu filho, e eu creio na reencarnação, para proteger-me psicologicamente da dor, mas, o próprio processo de crer encerra também a dúvida. Exteriormente, acumulo coisas e faço vir a guerra; interiormente, acumulo crenças e produzo dor. Enquanto desejo estar em segurança, ter depósitos nos bancos, prazeres, etc., enquanto desejo tornar-me alguma coisa, fisiológica ou psicologicamente, tem de haver dor. As próprias coisas que estou fazendo para proteger-me da dor trazem-me pena e dor.
O temor começa a existir quando desejo viver segundo determinado padrão. Viver sem medo significa viver sem determinado padrão. Quando desejo certa maneira de viver, isso em si é uma fonte de temor. Meu problema é esse, desejo de viver dentro de certa forma. Não posso quebrar a forma? Só posso quebrá-la, quando percebo esta verdade: que a forma está causando temor e que este temor está tornando mais forte a forma. Se disser, que devo quebrar a forma porque desejo livrar-me do medo estou, apenas, seguindo outro padrão, que acarretará mais temor. Qualquer ação da minha parte, baseada no desejo de quebrar a forma só criará outro padrão, e, por conseguinte, temor. Como posso quebrar a forma sem causar temor, isto é, sem nenhuma ação consciente ou inconsciente de minha parte, com relação à forma? Isso significa que não devo agir, que nenhum movimento devo fazer, para quebrar a forma. Que acontece quando fico simplesmente observando a forma, sem fazer coisa alguma em relação a ela? Vejo que a própria mente é a forma, o padrão, que ela vive no padrão "habitual” que para si própria criou. Por conseguinte, a própria mente é o medo. Tudo o que a mente faz, visa fortalecer um padrão antigo ou favorecer um padrão novo. Isso significa que tudo o que a mente faz para livrar-se do temor, gera temor.  
O temor encontra vários meios de fuga. A variedade mais comum é a identificação, não é? Identificação com a pátria, a sociedade, uma ideia. Já não notastes a maneira como reagis, quando assistis a um desfile militar ou a uma procissão religiosa, ou quando a pátria está ameaçada de invasão? Vós vos identificais, então, com a pátria, com uma entidade, com uma ideologia. Em outras ocasiões vos identificais com vosso filho, vossa esposa, com determinada forma de ação ou de inação. A identificação é um processo de auto esquecimento. Enquanto estou cônscio do "eu”, sei que há dor, há luta, medo constante. Mas se posso identificar-me, ao menos temporariamente, com algo maior, algo vantajoso, a beleza, a vida, a verdade, a crença, o conhecimento, nisso há fuga do "eu”, não é verdade? Falando de "minha pátria”, esqueço-me de mim mesmo temporariamente. Se puder dizer algo a respeito de Deus, esqueço-me de mim mesmo. Se puder identificar-me com minha família, com um grupo, com determinado partido, certa ideologia, há então uma fuga temporária.

Extraído do livro de Krishnamurti


Paz e Luz

O que é o medo 1ª parte

Posted by Magali Marcadores:

O que é o MEDO? Só pode existir medo em relação a alguma coisa, nunca no isolamento. Como posso ter medo da morte, como posso ter medo de uma coisa que não conheço? Só posso ter medo do que conheço. Quando digo que temo a morte, estarei realmente com medo do desconhecido, que é a morte, ou estarei com medo de perder as coisas que conheço? Não tenho medo da morte e sim de perder a associação com as coisas que me pertencem. Meu medo está sempre em relação com o conhecido, não com o desconhecido.
O que agora desejo investigar é como livrar-me do medo do conhecido, que é o medo de perder minha família, minha reputação, meu caráter, minha conta no banco, meus desejos, etc. Podeis dizer que o medo nasce da consciência; vossa consciência, porém, é formada pelo vosso condicionamento, e, portanto a consciência é ainda o resultado do conhecido. Que eu conheço? Conhecimento é ter ideias, é ter opiniões a respeito de coisas, é ter um sentimento de continuidade, em relação ao conhecido, e nada mais. As ideias são lembranças, resultados de experiência que é reação ao desafio. Tenho medo do conhecido, o que significa que tenho medo de perder pessoas, coisas ou ideias, tenho medo de descobrir o que sou, medo de me ver em confusão, medo da dor, que poderia resultar da perda ou da não obtenção de alguma coisa ou da privação de prazeres.
Há o medo à dor. A dor física é uma reação nervosa, mas a dor psicológica se manifesta quando estou apegado às coisas que me dão satisfação, porque tenho medo de qualquer pessoa ou qualquer coisa que me possam roubar. As acumulações psicológicas impedem a dor psicológica, enquanto não são perturbadas, isto é, sou um feixe de acumulações, de experiências, as quais impedem qualquer perturbação séria, pois eu não desejo ser perturbado. Por conseguinte, tenho medo de qualquer pessoa que possa perturbá-las. Assim sendo, meu medo está em relação com o conhecido; tenho medo, por causa das acumulações físicas ou psicológicas que representam o meio que me resguarda da dor e do sofrimento. Mas existe sofrimento no próprio processo de acumular com o fim de obstar ao sofrimento. Assim, como a ciência médica concorre para evitar a dor física, do mesmo modo concorrem as crenças para evitar o sofrimento psicológico; e é por isso que tenho medo de perder minhas crenças, embora não tenha conhecimento perfeito nem prova concreta da realidade de tais crenças. Posso rejeitar algumas das crenças tradicionais que me foram inculcadas, porque minha experiência pessoal me dá força, confiança, compreensão; essas crenças, porém, e os conhecimentos, por mim adquiridos, são basicamente a mesma coisa, um meio de resguardar-me da dor.
Existe medo enquanto há acumulação do "conhecido”, a qual cria o medo de perder. O medo ao desconhecido, por conseguinte, é medo de perder o "conhecido” acumulado. Acumulação implica, invariavelmente, temor, e no momento em que digo "não devo perder”, há temor. Embora minha intenção, acumulando, seja a de resguardar-me da dor, a dor é inerente ao processo de acumulação. As próprias coisas que possuo criam temor, que é dor.
A defesa contém o germe do ataque. Desejo a segurança física; crio, por conseguinte, um governo soberano, o qual torna necessárias forças armadas, o que significa guerra, que destrói a segurança. Onde quer que haja o desejo de autoproteção, há temor. Quando percebo a falácia da exigência de segurança, não acumulo mais. Se disserdes que percebeis isso, mas que não podeis deixar de acumular, então não percebe realmente que, inerente à acumulação, há dor. Há medo no processo de acumulação, e a crença em alguma coisa faz parte do processo acumulativo. Morre meu filho, e eu creio na reencarnação, para proteger-me psicologicamente da dor, mas, o próprio processo de crer encerra também a dúvida. Exteriormente, acumulo coisas e faço vir a guerra; interiormente, acumulo crenças e produzo dor. Enquanto desejo estar em segurança, ter depósitos nos bancos, prazeres, etc., enquanto desejo tornar-me alguma coisa, fisiológica ou psicologicamente, tem de haver dor. As próprias coisas que estou fazendo para proteger-me da dor trazem-me pena e dor.

Texto retirado do livro de Krishnamurti
 


Jornada evolutiva não é escolha de todo ser humano... Mas, quem a fez, necessita de conhecimento e, invariavelmente, de ação...

Luz e Paz